Skip to main content

Eu perdi a vontade de vi(ver)

Não consigo me lembrar quando – nem como – mas, em março de 2015, quando ainda fazia calor, eu me lembro de olhar pra dentro de mim e não ver nada. Havia um vazio tão grande que nem mesmo dor eu era capaz de sentir.

Ninguém notou quando eu perdi a vontade de acordar, de me vestir e passava o tempo todo evitando socializar e fugindo do mundo. E, embora eu me esforçasse para levantar da cama, ficar lá parecia inúmeras vezes melhor.

Parecia frescura, mas por dentro eu estava me afogando. O ar não parecia puro e eu estava completamente sufocada. Porém, algumas pessoas são incapazes de nos olhar por dentro e eu só queria que alguém, em algum lugar, me enxergasse. Acontece que hoje em dias as pessoas nos olham rápido demais e ninguém nota nossos temporais.

Às vezes eu sorria. Às vezes eu chorava. Às vezes eu morria. Em outras ressuscitava. Era tudo inconstante e não havia olhos que me alcançassem.

“Você está bem?”

“Estou”

“Ah sim, você ficou sabendo que fulano…”

E a conversa terminava sem que a pessoa realmente demonstrasse interesse pelo meu estado emocional, mesmo com todas as amostras de apatia e indícios de que eu estava precisando de ajuda, não houve uma única pessoa que me estendesse a mão. Claro que ninguém era obrigado a adivinhar os meus problemas ou meus momentos sombrios, mas se tem algo que eu consigo notar é quando uma pessoa não está nos seus melhores dias. Eu acho que é sempre bom perceber os sinais, mesmo que pequenos.

Quando foi que deixamos de nos interessar pelo próximo? Em que parte do caminho perdemos a empatia? Onde foi que a dor do outro deixou de ser importante? Ficamos cegos ou invisíveis? Agora nós não falamos mais, não compartilhamos mais, nos calamos. Deixamos o mundo nos corromper emocionalmente e esquecemos que o que o outro sente também é problema nosso. Sempre foi e sempre será.

As pessoas sempre dizem em suas redes sociais que estão com ‘saudades’ uma das outras, mas nunca dão um passo em direção de nossas casas para nos fazer uma visita. Todo mundo está sempre tão feliz em suas fotos e vídeos que ninguém imagina o caos e a desordem que nos consomem no offline. Ninguém mais “é”, agora nós “aparentamos ser”. E nessas aparências o ser humano se perdeu de sua essência.

A nossa geração se afogou em ondas de indiferença e quem ousa demonstrar o mínimo de sensibilidade é rotulado como “fraco”. Não podemos mais demonstrar amor, pois isso será usado contra nós. Amar virou arma e enquanto eles se gabam por pisar em corações, eu só queria alguém que acalmasse o meu.

Quando eu desisti de viver não houve uma pessoa sequer que segurasse em minha mão e dissesse “eu estou aqui por você e nós vamos passar por isso juntos”, então eu percebi que talvez o problema não fosse meu jeito descontrolado de sentir tudo ou de me esforçar para abraçar a dificuldade dos outros. Talvez, a sociedade esteja ficando doente e dentro de mim se preserva a cura, porque não há nada de errado em se sentir especial – é muito melhor que se sentir inútil – e estar bem por isso. Na verdade, eu acredito que todos nós nos sentimos especiais de algum modo, porém alguns ainda estão perdidos, como eu estive.

Eu espero que as pessoas aprendam a se tocar com mais cuidado, entendendo que cada ser está passando por processos de transformações e que, em algumas vezes, esse processo é doloroso. Eu espero que as pessoas parem de prestar atenção em seus smartphones e comecem a reparar nos pequenos sinais que cada indivíduo dá quando está em ebulição.

Na maioria das vezes a gente desiste porque está cansado, com raiva, deprimido, etc e existe um enorme vazio impreenchível dentro de nós. A dor física a gente consegue curar com remédios, mas a dor da alma, essa precisa de muita coragem e força para combater. É necessário se olhar pra se ver.

Depois de muita reflexão no espelho, decidi não me abandonar. Respirei tão fundo que quase flutuei. Encarei meus medos e percebi que a única pessoa que poderia me salvar, era eu mesma. Eu compreendi que em alguns momentos eu vou querer conversar, mas àqueles que amo vão querer ficar em silêncio, então eu leio ou escrevo. Em mim, a literatura foi uma das curas. Permita se conhecer e descubra seus talentos.

Eu sei que em algum momento da sua vida vão dizer “Você não está fazendo o suficiente. Faça o seu melhor”, e também sei que “você está fazendo o melhor que pode”, mas entenda que algumas coisas não dependem do ‘seu melhor’, afinal nem sempre temos o nosso melhor pra oferecer. Alguns dias nós só queremos descansar, e está tudo bem.

Hoje eu entendo que eu nunca perdi a vontade de viver ou de acordar, eu só estava cansada. Por isso, descanse. Descanse sua mente, seu corpo. Não se abandone. Nunca permita que alguém ame sua vida mais do que você.

A beleza do amanhã se constrói a cada dia. A minha ansiedade me ensinou a ver os pequenos detalhes com os olhos da alma. Depois de 3 internações com suspeita de infarto, eu percebi que viver é um milagre e estar aqui me torna parte desta dádiva. Olhe pro céu com mais frequência. Perceba o aroma das flores. Toque nos seus amigos, converse com eles. Se importe. Se expanda. Sente na grama e suje seu short sem se importar com o preço do sabão em pó. Desconecte-se. Assim como o mar, nós também temos nossos dias de revolta e não há terapia melhor do que nos amarmos incondicionalmente.

Quando eu perdi a vontade de viver, eu renasci.

One thought to “Eu perdi a vontade de vi(ver)”

  1. Esse foi o texto mais lindo que tive a oportunidade de lê na vida, quando você perde a vontade de viver é assim, mas sempre vai existir uma fagulha de vida dentro de você.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *